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quinta-feira, 8 de março de 2012

A PERDA DOS VALORES DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA NA OBRA ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, DE JOSÉ SARAMAGO

A PERDA DOS VALORES DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA NA OBRA ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, DE JOSÉ SARAMAGO 1

Estamos cada vez mais cegos, porque cada vez menos queremos ver. No fundo, o que este livro quer dizer é, precisamente, que todos nós somos cegos da Razão.
José Saramago

RESUMO
A obra Ensaio sobre a cegueira, do escritor português José Saramago, foi publicada em 1995 e, segundo o próprio autor, representa a perda da Razão da nossa sociedade. Para tornar possível tal representação, o autor se vale da epidemia de cegueira para tematizar esta como perda de valores. Com esse advento, que abre margem para o autor construir inúmeras possibilidades do que aconteceria se de fato ocorresse tal epidemia, os valores humanos são colocados à prova. O objetivo do presente artigo foi observar e analisar a perda dos valores da sociedade contemporânea no referido livro, ressaltando-se que o mesmo é uma das obras importantes da literatura em língua portuguesa produzidas nas últimas décadas. Baseando-nos no conceito de “liquidez” exposto por Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida (2001), segundo o qual a sociedade, assim com os líquidos, é incapaz de manter a forma; de possuir instituições sólidas e construir valores que não sejam facilmente mutáveis, procuramos verificar, partindo da análise do referido Ensaio, como os indivíduos de tal obra de ficção vivem com a constante mudança desses valores. Obtivemos como resultado que as personagens da obra Ensaio sobre a cegueira, como representantes dos indivíduos pós-modernos, refletem o atual estado da nossa sociedade. Esta sociedade – cujos indivíduos, influenciados facilmente por diversos fatores, como o consumismo exagerado e a exacerbação da individualidade, vivem inúmeros conflitos em suas relações – enquadra-se no já mencionado conceito de “liquidez” de Zygmunt Bauman, utilizado como base para a análise da obra em estudo.
Palavras-chave: Valores. Leitura. Pós-modernidade.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Antes de fazermos quaisquer considerações sobre literatura, sociologia ou filosofia − áreas intrinsecamente ligadas aos temas aqui discutidos −, é fundamental lembrarmo-nos de que, para as considerações feitas neste artigo, teremos diferentes pontos de observação: o primeiro partirá da análise, na obra Ensaio sobre a cegueira (doravante referida pela sigla ESC), da questão central da obra: a cegueira; o segundo ponto partirá justamente das observações dessa cegueira como representação da sociedade contemporânea; o último ponto, não menos importante, constituir-se-á de discussões decorrentes de observações em relação à “modernidade líquida” descrita por Bauman (2001), observações estas que serão muitas vezes relacionadas com a obra ESC e com outros pontos de vista sobre a sociedade.
Todos esses pontos de partida, é necessário que se saiba, buscarão a discussão sobre a questão dos valores na obra e, consequentemente, na sociedade contemporânea − uma vez que tomamos a obra ESC como representação dessa sociedade.

O ENSAIO DE SARAMAGO E A “MODERNIDADE LÍQUIDA” DE BAUMAN
No Ensaio não se lacrimejam as mágoas íntimas de personagens inventadas, o que ali se estará gritando é esta interminável e absurda dor do Mundo.
José Saramago
Vivemos num mundo de flexibilidade universal, sob condições de Unsicherheit3 aguda e sem perspectivas, que penetra todos os aspectos da vida [...].
Zygmunt Bauman

Sobre ESC, alerta João Marques Lopes (2010) que o próprio Saramago chegou a afirmar que esta obra, juntamente com A caverna e Todos os nomes, formaria “[...] uma ‘trilogia involuntária’ na base do mesmo caráter alegórico, pessimista e desencantado de romances sobre um mundo abandonado pela razão” (LOPES, 2010, p. 158). Entendemos, portanto, a cegueira como base temática para representar a perda da Razão.
Essa cegueira, se tomarmos como referência as considerações feitas por Bauman (2001), pode ser interpretada de diversas formas − todas, no entanto, refletindo uma análise do deplorável estado em que se encontra a humanidade. Algumas dessas possíveis interpretações são estas: a cegueira como representação de uma alienação, pois os indivíduos não compreendem totalmente suas relações sociais; como o ápice da individualização, uma vez que as pessoas são tão “cegas” que passaram a não mais enxergar o “outro”; e/ou como destruição constante dos tradicionais modelos de comunidade, baseados na “solidez” de seus quadros de referência, instituições e valores. Estes valores, na presente investigação, são fundamentais para a compreensão dessas diferentes − mas simultâneas − interpretações. Vale ressaltar que passamos a considerar as referidas interpretações e outras a serem observadas para as discussões subsequentes.
Sobre a razão, podemos tomar de empréstimo algumas palavras de Nietzsche (2006) sobre a consciência para explicá-la. Para o filósofo alemão, a consciência
[...] é considerada como a “unidade do organismo”! – essa ridícula superestimação, esse desconhecimento da consciência teve esse resultado feliz de impedir o desenvolvimento demasiado rápido da consciência. Julgando já possuir o consciente, os homens pouco se esforçam por adquiri-lo – e hoje ainda não é diferente! (NIETZSCHE, 2006, p. 48).

De forma semelhante, a Razão, assim chamada por convenção − pois é justamente a não utilização total dela que leva à cegueira −, parece-nos algo comum a quase todos os indivíduos; na verdade, se examinarmos as considerações acima sobre a consciência, foi também a razão superestimada; esta superestimação conduziu a humanidade, agente e vítima de tal ação, a uma não compreensão total da Razão.
Os valores, que são influenciados por essa perda da Razão e constantemente transformados em nossa sociedade, são assim analisados por Anderson Pereira (2009):
[...] a fluidez dos valores tem sido a tônica, a rapidez nas ações tem conduzido os processos, tanto os processos produtivos industriais quanto os processos sentimentais, afetivo-sexuais; assim vivemos, pois, numa espécie de “ressaca da razão”, na qual o subtexto diz claramente que, o tudo é muita coisa, e o sempre é muito tempo; nada deve durar demais, nada deve ser tão rígido que não possa ser moldado de acordo com esses novos valores (PEREIRA, 2009, p. 51).

Como percebemos, a terceira interpretação dada à cegueira − a qual aponta para a perda de quadros de referência, valores etc. − pode ser facilmente identificada no atual estado da sociedade. Neste estado, há uma “[...] pulverização de referências fortes nos valores éticos [...]”, o que deixa os indivíduos sem sinalização/referência (PEREIRA, 2009, p. 52).
Uma das questões fundamentais para compreendermos essa instabilidade dos valores provém precisamente da individualização. Como o Estado deixou os indivíduos “livres”, estes não mais têm um poder que os possa “reger”. Assim encontrando-se, legando o poder regente suum cuique4, os indivíduos podem contar apenas com eles próprios. Os valores, assim, sem sinalização de referências aceitáveis, encontram-se sem expectativa para os indivíduos − e é isso que se constata quando do surto epidêmico da cegueira. Sobre os modos de conduta, salienta Bauman (2001):
[...] graças à monotonia e à regularidade de modos de conduta recomendados, para os quais foram treinados e a que podem ser obrigados, os homens sabem como proceder na maior parte do tempo e raramente se encontram em situações sem sinalização [...] (BAUMAN, 2001, p. 28).

É precisamente neste raro estado que se encontra a sociedade representada por Saramago em ESC, bem como a “modernidade líquida” analisada por Bauman: os indivíduos, na pós-modernidade, encontram-se sem sinalização, normas ou regras para seguirem. Como afirma Bauman (2001), o poder regente livrou-se da rígida fiscalização dos indivíduos, a qual era cara e dava prejuízos ao Estado. (BAUMAN, 2001). A fiscalização agora ganhou o prefixo “auto”, e os indivíduos constroem no âmbito particular os seus valores.
Como bem nos lembra Bauman (2001): “As diferenças nascem quando a razão está inteiramente desperta ou voltou a adormecer” (BAUMAN, 2001, p. 193). As diferenças são compreendidas nos valores dos indivíduos quando eles perdem a noção de comunidade, coletividade; e passam a viver apenas com valores próprios, muitas vezes totalmente distintos dos necessários à manutenção de uma comunidade. Em ESC, a individualidade é o princípio básico para quase todos os indivíduos; alguns destes encontram-se no manicômio obrigados a se organizarem em pequenas comunidades. Estas, no entanto, são apenas prototípicas, pois o convívio é conturbado, o que mostra quão difícil é a vida em coletividade na “modernidade líquida”.
Influenciados pela não percepção total de suas relações sociais e pela individualização, os indivíduos pós-modernos encontram-se em um estágio da modernidade denominado por Bauman (2001) com a expressão “modernidade líquida”. Nesta sociedade, como salienta Anderson Pereira (2009), o indivíduo entende que,
[...] na defesa das suas próprias ambições e paixões materiais tudo é possível, comporta-se como se estivesse numa espécie de cassino pós-moderno onde o interesse central é ganhar; as dinâmicas sociais deixam cada vez mais claro no subtexto que ser ético é perder poder (PEREIRA, 2009, p. 52).

Em ESC, vemos claramente a representação desse tipo de indivíduo: a maioria dos cegos importa-se apenas com sua própria sobrevivência; nessa luta pela vida, a ética é motivo de derrota, de não sobrevivência; a preocupação com o “outro” é motivo de perda. Ou seja, há no atual estágio de nossa sociedade uma mutação catastrófica dos valores. Como afirmam Santos e Souza (2009): “Pensar as relações sociais existentes é pensar o conjunto da sociedade” (SANTOS; SOUZA, 2009, p. 57). Longe de compreenderem as relações sociais na “modernidade líquida” e de pensar no conjunto de uma sociedade, os indivíduos pós-modernos − bem como os cegos de ESC − representam a primeira interpretação das três apresentadas no início desta pesquisa: a cegueira como representação de uma alienação social.
A “modernidade líquida”, como a entende Bauman (2001), pode ser-nos apresentada com a seguinte metáfora:
[...] o labirinto está firme em seu lugar; talvez tenha se tornado ainda mais traiçoeiro e confuso devido ao ilegível emaranhado de pegadas que se cruzam, à cacofonia de comandos e à contínua adição de novas passagens tortuosas, novas vias sem saída, às que foram deixadas para trás (BAUMAN, 2001, p. 159).

O mundo, de certa forma, é o mesmo; a forma das pessoas, também; mas o “emaranhado” de valores, estilos de vida e códigos de conduta é que foram brusca e negativamente alterados. Também em ESC o mundo e as pessoas são os mesmos; os valores, as relações sociais e a percepção total do conjunto de sociedade é que foram “quebrados”. A cegueira, assim, pode ser entendida como uma metáfora que representa como os indivíduos pós-modernos, mesmo tendo a capacidade de olhar, pensar e viver, não conseguem ver, ser críticos e conviver.
Apresentadas as três interpretações referidas sobre ESC e feitas algumas considerações sobre a “modernidade líquida” descrita por Bauman (2001), cabe-nos agora observar as palavras de Eduardo Luft (2005):
Vimos que o mundo é permeado por valores: a ordem mesma do mundo supõe a presença de uma trama axiológica objetiva. Mas somente os seres humanos são capazes de reconhecer as hierarquias de valor inerentes ao mundo, e perguntar pelo sentido ético abrangente do devir universal. O pensamento humano traz profundidade ao mundo, e também se envolve em paradoxos. O mundo humano está permeado por duas características dos seres pensantes: a presença de liberdade reflexiva, ou seja, ação livre mediada pelo pensamento crítico; a capacidade de observar o mundo de uma perspectiva universal (LUFT, 2005, p. 140).

Uma vez que os indivíduos da sociedade pós-moderna não têm mais essa “trama axiológica objetiva” − agora estritamente subjetiva; já não conseguem reconhecer “as hierarquias de valores inerentes ao mundo” (agora individuais) ou perguntar-se sobre o “sentido ético abrangente do devir universal” − pois não mais acreditam em um fim no qual poderia ser encontrado um Estado de perfeição; uma vez que eles também não exercem essa “liberdade reflexiva” − no que tange às suas percepções sobre a sociedade − nem observam o mundo “de uma perspectiva universal”, mas sim particular, podemos facilmente compreender o estágio “liquefeito” da modernidade.
Feitas as observações teóricas acerca da “sociedade líquida” e da metáfora da cegueira, podemos agora partir para os próximos tópicos: “Individualidade” e “Consumismo”, nos quais faremos algumas constatações na obra ESC relacionadas à “modernidade líquida”.

INDIVIDUALIDADE
Tememos a disposição hostil do próximo, porque receamos que, graças a esta disposição, ele chegue aos nossos segredos.
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Como afirma Nietzsche (1978): “Nada foi comprado mais caro do que esse pouco de razão humana e de sentimento de liberdade que agora constitui nosso orgulho” (NIETZSCHE, 1978, p. 162). Salienta ainda o filósofo (1998):
Todo o mundo interior, originalmente delgado, como que entre duas membranas, foi se expandindo e se estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora. Aqueles terríveis bastiões com que a organização do Estado se protegia dos velhos instintos de liberdade - os castigos, sobretudo, estão entre esses bastiões – fizeram com que todos aqueles instintos do homem selvagem, livre e errante se voltassem para trás, contra o homem mesmo (NIETZSCHE, 1998, P. 73).

Essas últimas considerações podem levar-nos facilmente a pensar que os indivíduos de nossa sociedade se encontram em um estado de total liberdade. No entanto, essa liberdade é somente parcial: os indivíduos estão supostamente livres para exercerem suas ações. Estas ações, é de comum acordo, devem ser exercidas em comunhão com a ideia de comunidade − portanto, devem ser amainadas as ações exercidas com base na individualidade. Os indivíduos pós-modernos, agindo em desacordo com essa noção, exercem suas ações baseando-se estritamente em princípios particulares, que destoam dos coletivos, de comunidade.
Em ESC, tomando nós emprestadas as palavras de Diehl (2009), os indivíduos encontram-se em um estado de natureza, no qual importa-lhes “[...] fazer tudo aquilo que o seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios adequados [...]” para garantir sua sobrevivência. (DIEHL, 2009, p. 35). Com isso, há uma “[...] corrosão e a lenta desintegração da cidadania” (BAUMAN, 2001, p. 46).
Mesmo organizando-se em pequenos grupos − protótipos de comunidades −, os indivíduos de ESC quebram os princípios necessários a uma boa convivência. Como destaca Anderson Pereira (2009),
[...] cada vez mais no âmbito social se fortalece uma dinâmica de “coletivo que oprime coletivo”, segmentos sociais que se opõe a outro segmento apenas para fazer valer seus caprichos grupais (PEREIRA, 2009, p. 53).

Como já afirmamos, os valores “sólidos”, nesse contexto, são estraçalhados; somente os que são moldados com vistas às intenções particulares são tidos como válidos para os indivíduos. Em ESC, podemos observar essas questões facilmente no seguinte trecho, que mostra o momento em que alguns cegos retêm a comida destinada a todos apenas para eles:
No meio do átrio, rodeando as caixas de comida, um círculo de cegos armados de paus e ferros de cama, apontados para a frente como baionetas ou lanças, fazia frente ao desespero dos cegos que os cercavam e que, em desajeitados intentos, forcejavam por penetrar na linha defensiva, alguns, com a esperança de encontrarem uma aberta, um postigo deixado mal fechado por descuido, aparavam os golpes nos braços levantados, outros, arrastavam-se de gatas até esbarrarem com as pernas dos adversários, que os recebiam com pontadas nos lombos e pontapés [...] (SARAMAGO, 1995, p. 138).

Pensando somente nos seu abastecimento de comida, os cegos que interditaram a distribuição correta da alimentação levam em consideração apenas os interesses do seu pequeno número de indivíduos formadores de comunidade − notadamente prototípica.
Como percebe Bauman (2001): “Não importa mais onde está quem dá a ordem - a diferença entre ‘próximo’ e ‘distante’, ou entre o espaço selvagem e civilizado e ordenado, está a ponto de desaparecer” (BAUMAN, 2001, p. 18). Esse é o estado caótico causado pela cegueira epidêmica. Com esta epidemia, a distinção entre valores éticos e não éticos não some (conceitualmente), mas sofre alterações em sua percepção por parte da maioria dos cegos; pois estes, dadas as condições em que se encontram, não se importam com o respeito a regras éticas, mas sim com sua sobrevivência. Não é diferente quando comparamos esse estado aos valores e à noção de individualidade na “modernidade líquida”.
Como bem observa Renato Nunes Bittencourt (2009):
Ser livre pressupõe uma responsabilidade difícil de suportar perante a líquida vida social, cada vez mais diluída na ausência de uma autêntica compreensão e valorização da figura do ‘outro’, que é sempre imputado como o estranho, jamais um potencial indivíduo capaz de interação. As parcerias não se fortalecem e os medos não dissipam (BITTENCOURT, 2009, p. 27).

A noção de comunidade, portanto, é também estraçalhada na “modernidade líquida”, em comparação com a noção anterior de “modernidade sólida”. Em ESC, a ideia de comunidade, como já foi dito, apresenta-se apenas como modelo que, mesmo parecendo, não é alcançado. Também a noção de identidade tornou-se disforme: como afirma Stuart Hall (2006),
[...] as identidades, que compunham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as “necessidades” objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático (HALL, 2006, p. 12).

Assim como as identidades, os valores também não são fixos, essenciais ou permanentes. Em ESC, podemos encontrar nos primeiros capítulos um exemplo dessa flexibilidade das identidades: a personagem denominada “bom samaritano”, que ajuda o primeiro cego a chegar em casa, rouba o carro deste último, transformando-se rapidamente de uma figura que representava valores solidários em uma figura que passa a representar valores oportunistas − entendidos estes últimos em seu sentido negativo:
Um carro parou na rua, Até que enfim, pensou, mas acto contínuo estranhou o barulho do motor, Isto é diesel, isto é um táxi, disse, e carregou uma vez mais no botão da luz. A mulher vinha a entrar, nervosa, transtornada, O santinho do teu protector, a boa alma, levou-nos o carro [...] (SARAMAGO, 1995, p. 20).

A figura do “bom samaritano” é, aqui utilizadas as palavras de Bauman (2001), “[...] um trapaceiro que mira o que está à mão e é inspirado e limitado pelo que está à mão, mais formado que formador, mais o resultado de agarrar a oportunidade que o produto de planejamento e projeto” (BAUMAN, 2001, p. 160).
Como percebemos, a nova concepção de identidade, ao mesmo tempo em que “[...] desarticula as identidades estáveis do passado [...]”, abre margem para “[...] novas articulações: a criação de novas identidades, a produção de novos sujeitos [...]” etc. (HALL, 2006, p. 17). Os indivíduos pós-modernos, que vivem “[...] num mundo cheio de oportunidades [...]”, facilmente desviam-se dos valores éticos (BAUMAN, 2001, p. 74). A possibilidade de essas novas articulações surgirem não é um problema em si; mas sim a constante desvinculação do sujeito em relação ao outro, à coletividade, à comunidade. Nesse contexto, as identidades − bem como os valores − “[...] parecem fixas e sólidas apenas quando vistas de relance, de fora” (BAUMAN, 2001, p. 98). Afirma ainda Bauman (2001):
É difícil conceber uma cultura indiferente à eternidade e que evita a durabilidade. Também é difícil conceber a moralidade indiferente às consequências das ações humanas e que evita a responsabilidade pelos efeitos que essas ações podem ter sobre os outros (BAUMAN, 2001, 149).

Em ESC, é justamente a indiferença à moralidade e às consequências das ações humanas que é percebida. O efeito que as ações de uns pode ter sobre outros não importa, pois somente a sobrevivência individual é tida como importante para a maioria dos cegos. Como podemos deduzir, somente quando ultrapassarem as barreiras do âmbito individual, caminhando ao coletivo, os indivíduos encontrarão a liberdade de facto. Somente na propagação dos valores individuais, a humanidade parece decair cada vez mais. Com bem afirma Bauman (2001):
Quem sabe não seria um remédio manter-se, como no passado, ombro a ombro e marchar unidos? Quem sabe se, caso os poderes individuais, tão frágeis e impotentes isoladamente, fossem condensados em posições e ações coletivas, poderíamos realizar em conjunto o que ninguém poderia realizar sozinho? Quem sabe... [...] (BAUMAN, 2001, p. 44).

Abordadas essas questões, podemos passar para o próximo tópico, o qual está intimamente ligado à individualização extrema percebida no estágio “líquido” da modernidade.

CONSUMISMO
[...] o ser humano se despersonaliza e adquire o estatuto de coisa a ser consumida, para em seguida ser descartada, quando a outra pessoa se cansa do uso continuado do objeto “homem”, facilmente reposto por modelos similares.
Renato Nunes Bittencourt

Como bem sabemos, o capitalismo tenta tornar sinônimas as palavras cidadão e consumidor. Nessa busca feroz, os valores éticos (de conduta) e estéticos são drasticamente modificados, pois parecem dispensáveis, irrelevantes e até mesmo prejudiciais à nova noção de vida racional promovida pelo capitalismo. O porquê disso? Ora, a palavra cidadão está intrinsecamente ligada à palavra comunidade; a palavra consumidor, por sua vez, está estreitamente relacionada ao âmbito particular. O que o capitalismo em sua fase “leve”5 faz é, basicamente, quebrar as barreiras linguísticas e sociais entre esses dois âmbitos. Mais que isso, o capitalismo transforma os indivíduos em consumidores insaciáveis.
Em ESC, podemos perceber esse consumismo insaciável no seguinte trecho, que descreve o momento em que a personagem “mulher do médico” encontra-se em um armazém cheio de produtos. Mesmo já tendo pegado uma quantidade suficiente de caixas de fósforos, ela continua pegando mais; ao que parece, ela repete o mesmo em relação a outras mercadorias encontradas:
A partir de agora a colheita seria fácil. Começou pelas caixas de fósforo, e foi um saco quase cheio, Não é preciso levá-las todas, dizia-lhe a voz do bom senso, mas ela não deu atenção ao bom senso, depois as trémulas chamas dos fósforos foram mostrando as prateleiras, para cá, para lá, em pouco tempo os sacos ficaram cheios, o primeiro teve de ser despejado porque não continha nada que prestasse, os outros já levavam riqueza suficiente para comprar a cidade [...] (SARAMAGO, 1995, p. 223).

Como vemos – embora o trecho em questão mostre um impulso decorrente das práticas de consumo, ou seja, um impulso semelhante ao ato de “ir às compras” –, a obsessão pelo consumo fez a “mulher do médico” encher sacos inteiros com produtos desnecessários. Mesmo jogando-os fora depois, é notável que, no momento da “compra”, os consumidores não atentam somente para o que eles realmente precisam, mas também adquirem produtos que não lhes servem. A característica de se posicionar como consumidor, na “modernidade líquida”, não é exercida somente diante das compras, mas também diante do “outro” − na verdade, dos “outros”. Como bem afirma Renato Nunes Bittencourt (2009),
[...] o ser humano se despersonaliza e adquire o estatuto de coisa a ser consumida, para em seguida ser descartada, quando a outra pessoa se cansa do uso continuado do objeto “homem”, facilmente reposto por modelos similares (BITTENCOURT, 2009, p. 19).

Os valores que ditavam as relações sólidas, fixas e permanentes, com a passagem da modernidade sólida para a líquida, foram negativamente modificados. Como o “outro” pode ser rapidamente substituído, não mais atenção recebem as relações duradouras, baseadas em princípios éticos de respeito mútuo. Como relaciona Bauman (2005):
Seu carro passa por uma revisão todo ano. Por que não seu relacionamento?”, indaga Hugh Wilson. De fato. O que vale para os carros também vale para os relacionamentos. Ou seja, ambos só fazem sentido se atendem às suas necessidades e enquanto você estiver satisfeito com a forma como isso se dá... Seria tolo imaginar que eles continuarão desempenhando bem suas tarefas para sempre e que seu contentamento será eterno. [...] Somos consumidores numa sociedade de consumidores. A sociedade de consumidores é uma sociedade de mercado. Todos nos encontramos totalmente dentre dele, e ora somos consumidores, ora mercadorias. Não admira que o uso/consumo de relacionamentos se aproxime, e com rapidez, do padrão de uso/consumo de carros, repetindo o ciclo que começa na compra e termina na remoção do lixo (BAUMAN, 2005, p. 151).

Mesmo não sendo efetuada a ruptura da relação entre o “oftalmologista” e sua esposa (a “mulher do médico”), constatamos em ESC esse estado “liquefeito” dos relacionamentos, nos quais, quando um dos parceiros não está atendendo às expectativas do outro, é facilmente substituído. O trecho em questão refere-se ao momento em que o “oftalmologista” relaciona-se sexualmente com a personagem “rapariga dos óculos escuros”. O fio de razão que perpassa toda a obra, a “mulher do médico”, entendendo que o acontecimento é reflexo dessa confusa concepção de relacionamento na sociedade em questão − a do país fictício retratado (aqui relacionado com a “modernidade líquida” de Bauman) −, perdoa os dois pela traição:
Encostada à parede do fundo, no espaço estreito entre as duas fileiras de catres, olhava desesperada a porta no outro extremo, aquela por onde tinham entrado num dia que já parecia distante e que não levava agora a parte alguma. Assim estava quando viu o marido levantar-se e, de olhos fixos, como um sonâmbulo, dirigir-se à cama da rapariga dos óculos escuros. Não fez um gesto para o deter. De pé, sem se mexer, viu como ele levantava as cobertas e depois se deitava ao lado dela, como a rapariga despertou e o recebeu sem protesto, como as duas bocas se buscaram e encontraram, e depois o que tinha de suceder sucedeu, o prazer de um, o prazer do outro, o prazer de ambos, os murmúrios abafados, ela disse, Ó senhor doutor, e estas palavras podiam ter sido ridículas e não o foram, ele disse, Desculpa, não sei o que me deu [...]. [o oftalmologista] fez um movimento para voltar à sua cama, mas uma voz disse, Não te levantes, e uma mão pousou-se no seu peito com a leveza de um pássaro, ele ia falar, talvez repetir que não sabia o que lhe tinha dado, mas a voz disse, Se não me disseres nada compreenderei melhor. (SARAMAGO, 1995, p. 171-172).
Em relação à personagem “rapariga dos óculos escuros”, percebemos que o posicionamento do “oftalmologista” é este: “[...] o mais conveniente é se relacionar com alguém sem que haja afetivamente qualquer tipo de interação completa entre os parceiros” (BITTENCOURT, 2009, p. 20).
Como vemos, essa é a tônica dos relacionamentos na “modernidade líquida”. Assim como um líquido que facilmente pode ser derramado e depois trocado por outro, também os relacionamentos podem ser rapidamente acabados e mais rapidamente ainda substituídos.
Feitas essas considerações sobre o consumismo, suas relações com a individualidade e as representações dessas questões em ESC, podemos fazer as últimas considerações no tópico seguinte.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Num mundo em que as coisas deliberadamente instáveis são a matéria-prima das identidades, que são necessariamente instáveis, é preciso estar constantemente em alerta; mas acima de tudo é preciso manter a própria flexibilidade e a velocidade do reajuste em relação aos padrões cambiantes do mundo ‘lá fora’.
Zygmunt Bauman

Inicialmente, discutimos e constatamos na obra ESC algumas interpretações para a mesma, tais como: resultado de uma alienação que diz respeito às relações sociais; representação de uma individualidade extrema, que faz os indivíduos pós-modernos desconsiderarem a figura do “outro” e pensarem apenas no âmbito particular; e como uma decadência da antiga noção de comunidade, a qual, em decorrência dessas duas últimas análises, faz com que os indivíduos construam apenas comunidades prototípicas, pois os valores de uma comunidade sólida não são seguidos, bem como as regras de convivência.
Como analisamos, essas considerações sobre ESC são claramente percebidas na “modernidade líquida” descrita por Bauman (2001), o que nos leva a afirmar que a obra ESC representa a sociedade contemporânea, tal como afirmamos no início desta pesquisa. No primeiro tópico, “O Ensaio de Saramago e a ‘modernidade líquida’ de Bauman”, discutimos mais detalhadamente as interpretações inicialmente dadas à obra ESC. Afirmamos que a cegueira é uma metáfora que representa o estado em que se encontram os indivíduos pós-modernos: eles conseguem olhar, pensar e viver; mas dificilmente conseguem conciliar essas três capacidades com ver, ser crítico e conviver.
No segundo tópico, “Individualidade”, abordamos mais detalhadamente as consequências das interpretações consideradas nos indivíduos. Estes, que não mais conseguem direcionar sua liberdade para um objetivo comum − baseando-se em princípios de comunidade −, não têm mais quadros de referências para seus valores. Essa situação, consequentemente, faz os indivíduos pós-modernos − bem como as personagens de ESC − considerarem apenas valores individuais, notadamente distintos dos necessários a uma boa convivência em comunidade.
No último tópico, “Consumismo”, identificamos as relações estreitas entre esse consumismo exacerbado constatado na “modernidade líquida” e suas representações na obra ESC. Como vimos, a noção de “ir às comprar” não mais somente em relação às compras é considerada, mas também quando se refere ao “outro”. Os valores que ditavam a boa conduta dos relacionamentos, nesse contexto, foram negativamente alterados, o que levou os “parceiros” a verem-se como produtos que podem ser substituídos se não mais estiverem satisfazendo as funções um do outro.
Chegando nós ao final deste artigo, esperamos ter discutido a transformação dos valores na “modernidade líquida” − bem como suas representações na obra ESC −, a qual consideramos ideal como índice dos contornos que toma a sociedade contemporânea.
Para finalizar, pensamos ser propícia uma última relação à metáfora da cegueira, ou seja, o que ela busca indicar como problema a ser combatido: a não percepção total das relações sociais e do universo em geral. A partir das ideias de Friedrich Wilhelm Nietzsche (2006):
Saber até onde vai o caráter perspectivista da existência ou mesmo saber se a existência possui ainda outro caráter, se uma existência sem interpretação, sem “sentido”, não se torna um “absurdo”, se, por outro lado, toda existência não é essencialmente interpretativa – é o que, como correto, não pode ser decidido pelas análises e pelos exames do intelecto mais assíduos e mais minuciosamente científicos: uma vez que o espírito humano, durante essa análise, não pode agir de outra forma do que se ver sob suas próprias perspectivas e unicamente assim. [...] Só podemos ver com nossos olhos: há uma curiosidade sem esperança em querer conhecer que outras espécies de intelectos e de perspectivas poderiam existir, por exemplo, se há seres que podem conceber o tempo para trás, ou ora em marcha para frente ora em marcha para trás (o que modificaria a direção da vida e inverteria igualmente a concepção da causa e do efeito). Espero, contudo, que estejamos hoje longe da ridícula pretensão de decretar que nosso reduzido canto é o único de onde se tem o direito de possuir uma perspectiva (NIETZSCHE, 2006, p. 251).

Como vemos, relacionando-se com a cegueira da “modernidade líquida”, nossas concepções são individuais − o que está em questão é que isso não implica a tendência de aversão à noção de comunidade. Os indivíduos precisam compreender que o mundo não gira em torno do âmbito particular de cada um deles, mas sim de acordo com perspectivas coletivas – se assim entendermos o mundo como ambiente de objetivos coletivos. Seguindo esse princípio, pensamos, os indivíduos pós-modernos poderão voltar a ver o mundo, suas relações sociais e seus valores de outro ponto de vista, notadamente essencial, fixo e permanente; e não fluido, instável e disperso.

REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
______. Vidas desperdiçadas. Trad. Carlos Alberto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
BITTENCOURT, Renato Nunes. “O medo na era da liquidez” In: Filosofia – Ciência & Vida. São Paulo: Editora Escala, 2009.
DIEHL, Frederico. “O que Hobbes diria sobre o nosso estado de segurança?” In: Filosofia – Ciência & Vida. São Paulo: Editora Escala, 2009.
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Notas
1 Trabalho apresentado no XXX ENCONTRO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA - Encontros Universitários UFC 2011.
2 Aluno do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará; membro do Grupo de Estudos Espaços de Leitura: Cânones e Bibliotecas, orientado pela Profa. Dra. Odalice de Castro e Silva.
3 Palavra alemã que significa “incerteza”.
4 Expressão latina que significa “a cada um o seu; o que lhe pertence”.
5 Para Zygmunt Bauman (2001), o capitalismo encontra-se, atualmente, em sua fase leve, que corresponde ao período posterior à primeira metade do século XX.

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